Inteligência artificial, novas competências, saúde mental e carreiras menos lineares exigem que a área abandone iniciativas isoladas e participe do redesenho do trabalho.
O futuro da gestão de pessoas não será definido apenas pelas tecnologias contratadas pelas empresas. Ele dependerá da capacidade do Recursos Humanos de preparar profissionais, reorganizar funções, fortalecer lideranças e construir relações de trabalho sustentáveis durante um período de transformações aceleradas.
Ficção científica e fantasia
Esse futuro já começou. A inteligência artificial participa de processos seletivos, analisa dados de pessoas, automatiza tarefas e influencia decisões. Ao mesmo tempo, empresas enfrentam queda do engajamento, falta de competências, gestores sobrecarregados e trabalhadores preocupados com saúde, dinheiro e empregabilidade.
Os desafios aparecem nos quatro cenários projetados para o futuro do trabalho até 2030. Eles combinam o avanço da inteligência artificial com o nível de preparo das pessoas. Quanto maior a adoção tecnológica sem capacitação, comunicação e proteção, maior o risco de desigualdade, insegurança e exclusão profissional.
O RH precisa, portanto, deixar de reagir separadamente a cada problema. Tecnologia, aprendizagem, carreira, saúde, benefícios e cultura fazem parte de um mesmo sistema.
Engajamento global cai para 20%
A urgência da transformação aparece nos dados. O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, mostra que apenas 20% dos trabalhadores estavam engajados em 2025, menor índice desde 2020.
O baixo engajamento teria provocado uma perda de aproximadamente US$ 10 trilhões em produtividade, equivalente a 9% do Produto Interno Bruto mundial.
Gestão
A queda mais acentuada ocorreu entre os gestores. O engajamento das lideranças recuou de 31% em 2022 para 22% em 2025. Entre os profissionais sem cargo de gestão, o índice ficou em 19%.
Os números mostram que o modelo atual está pressionando tanto quem executa quanto quem lidera. Para o RH, isso significa que campanhas de motivação, pesquisas de clima e benefícios pontuais terão impacto limitado se a organização não rever prioridades, metas, jornadas e práticas de liderança.
A experiência do colaborador começa na forma como o trabalho é organizado. Clareza, recursos, reconhecimento, autonomia, desenvolvimento e respeito influenciam mais a relação com a empresa do que iniciativas desconectadas da rotina.
IA precisa redesenhar funções, não apenas reduzir tarefas
A inteligência artificial aparece entre as principais prioridades dos CHROs em 2026. Pesquisa da PwC indica que 54% dos trabalhadores utilizaram IA em suas atividades no período analisado, mas somente 14% faziam uso diário de ferramentas generativas.
Entre os usuários diários, 92% relataram ganhos de produtividade, ante 58% entre os usuários ocasionais. A diferença mostra que o acesso frequente, acompanhado de conhecimento e aplicação prática, influencia os resultados.
Psicologia
O problema é que muitas organizações ainda tratam a IA como aquisição tecnológica. Instalam ferramentas, automatizam processos e cobram produtividade sem revisar cargos, responsabilidades e critérios de desempenho.
Como discutido na reportagem “IA redefine a gestão de pessoas nas empresas”, a tecnologia amplia o uso de evidências, permite personalizar políticas e ajuda a antecipar riscos. Mas também aumenta a responsabilidade sobre vieses, privacidade, segurança e transparência.
O RH do futuro precisará mapear tarefas, e não apenas cargos. Isso significa identificar o que pode ser automatizado, o que deve permanecer sob responsabilidade humana e quais atividades novas surgirão.
A decisão final sobre contratação, promoção, avaliação ou desligamento não deve ser transferida integralmente a um algoritmo. O conteúdo “Liderança e IA: como proteger a dignidade dos colaboradores” reforça que eficiência tecnológica precisa conviver com explicabilidade, supervisão humana e respeito aos direitos dos profissionais.
Na prática, dados e IA podem apoiar decisões, mas contexto, empatia e julgamento continuam sendo responsabilidades das lideranças, como mostra a experiência do QuintoAndar com inteligência artificial e liderança humana.
Capacitação deixa de ser evento e vira infraestrutura
A falta de competências é considerada a maior barreira à transformação por 63% dos empregadores consultados pelo Fórum Econômico Mundial. Até 2030, aproximadamente 39% das habilidades essenciais exigidas no trabalho deverão mudar.
Recursos e planeamento de carreiras
Em uma representação de 100 trabalhadores, 59 precisarão de capacitação ou requalificação. Onze deles correm o risco de não receber o treinamento necessário.
A resposta não está em aumentar indiscriminadamente a quantidade de cursos. O RH precisa relacionar aprendizagem às transformações das funções, aos problemas do negócio e às oportunidades reais de mobilidade.
A reportagem “Novas habilidades redesenham o trabalho até 2030” mostra que indicadores como aplicação do conhecimento, redução de erros, autonomia, mobilidade interna e capacidade de resolver novos problemas oferecem sinais mais consistentes do que o número de cursos concluídos.
A capacitação também precisa chegar aos profissionais da base. Pesquisa da PwC mostra que 72% dos altos executivos afirmam possuir os recursos necessários para aprender e se desenvolver. Entre os trabalhadores sem função de gestão, o índice cai para 51%.
Sem acesso equilibrado, a tecnologia pode aumentar a distância entre profissionais preparados para a IA e aqueles cujas funções estão mais expostas à automação.
O futuro exige aprendizagem incorporada à rotina, com projetos práticos, mentorias, trocas entre áreas e espaço para experimentar. Mais do que pessoas que acumulam conhecimentos, as empresas precisarão de profissionais preparados para aprender continuamente, como destaca a reflexão “O futuro do trabalho será cada vez mais humano”.
Gestores precisam de condições para liderar
O Workmonitor 2026, da Randstad, mostra que 60% dos trabalhadores procuram seus gestores em busca de segurança diante das incertezas. Isso ocorre justamente quando o engajamento dos próprios líderes está em queda.
Engenharia e tecnologia
O gestor passou a ser responsável por entregar metas, conduzir mudanças, administrar equipes híbridas, aprender novas tecnologias, oferecer feedback, desenvolver pessoas e reconhecer sinais de sofrimento emocional.
Em muitas organizações, entretanto, ele continua sobrecarregado por reuniões, controles e tarefas administrativas. Treinar a liderança sem rever essas condições pode transformar a formação em mais uma obrigação.
A reportagem “Liderar na era da IA exige novas competências humanas” mostra que curiosidade, coragem, comunicação e consciência sobre os efeitos da tecnologia ganham importância.
O RH precisa revisar a amplitude de controle, eliminar burocracias desnecessárias e criar indicadores que considerem não apenas as entregas, mas a forma como os resultados são alcançados.
Uma liderança que atinge metas enquanto destrói o clima, provoca adoecimento ou perde talentos não pode ser considerada de alta performance. A avaliação precisa incorporar qualidade da gestão, desenvolvimento da equipe, confiança e sustentabilidade dos resultados.
Carreiras lineares perdem espaço
Somente 41% dos profissionais ouvidos pela Randstad ainda desejam seguir uma trajetória tradicional. Entre os empregadores, 72% consideram ultrapassado o modelo de carreira baseado em uma escada linear de cargos.
Ficção científica e fantasia
O futuro tende a reunir movimentos laterais, projetos temporários, mudanças de especialidade, experiências internacionais e diferentes formas de vínculo. Isso exige que o RH substitua descrições rígidas por mapas de competências e possibilidades de contribuição.
A dificuldade de enxergar caminhos internos afeta especialmente profissionais mais jovens. A reportagem “Geração Z e o desafio da mobilidade interna” mostra que a falta de perspectivas pressiona retenção, carreira e uso de tecnologia.
A mobilidade interna precisa deixar de depender exclusivamente da indicação de gestores. Plataformas de oportunidades, processos transparentes e acesso a projetos de outras áreas podem permitir que as pessoas construam trajetórias dentro da organização.
O desenvolvimento também pode combinar cursos, mentorias, coaching e experiências práticas. A estratégia de desenvolvimento contínuo para carreiras internacionais mostra como diferentes ferramentas podem preparar talentos para funções futuras.
Há ainda um risco provocado pela IA: se as tarefas de entrada forem automatizadas, como os jovens profissionais ganharão experiência? O RH precisará criar novas atividades supervisionadas, projetos e responsabilidades progressivas para não interromper a formação das futuras lideranças.
Software empresarial e de produtividade
Equipes multigeracionais podem acelerar a aprendizagem
Pela primeira vez, empresas convivem com cinco gerações no mercado. Em vez de tratar as diferenças apenas como fonte de conflito, o RH pode transformá-las em vantagem de aprendizagem.
Segundo a Randstad, 78% dos trabalhadores dizem aprender competências humanas com colegas mais velhos, enquanto 72% aprendem tecnologia e inteligência artificial com profissionais das gerações mais jovens.
O conteúdo “O futuro do trabalho pertence às equipes multigeracionais” aponta que a convivência entre gerações pode estimular inovação, complementaridade e transferência de conhecimento.
Programas de mentoria reversa, duplas de aprendizagem e equipes compostas por diferentes experiências podem ajudar. Mas a diversidade etária precisa ser acompanhada por combate ao etarismo e critérios de carreira que não considerem profissionais experientes ultrapassados nem tratem os mais jovens como naturalmente despreparados.
Saúde mental passa a integrar a gestão de riscos
A Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade provoquem a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com impacto de US$ 1 trilhão na produtividade global.
Gestão
A dimensão do problema mostra que saúde mental não pode continuar restrita a palestras ou aplicativos. Benefícios psicológicos são importantes, mas não compensam jornadas excessivas, metas incompatíveis, assédio, insegurança ou falta de autonomia.
A reportagem “Adoecimento emocional expõe falhas que o RH não resolve sozinho” reforça que a prevenção exige participação da liderança, do jurídico, da saúde ocupacional e da alta administração.
No Brasil, a atualização da NR-1 amplia esse movimento ao exigir que os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho sejam considerados no gerenciamento de riscos ocupacionais. Como mostra a análise sobre o novo papel estratégico do RH diante da NR-1, a área precisa atuar de maneira integrada com Saúde e Segurança do Trabalho, jurídico, compliance e gestores.
O futuro da gestão de pessoas exigirá dados sobre afastamentos, absenteísmo, rotatividade, carga de trabalho, jornadas e denúncias. A finalidade não deve ser vigiar o trabalhador, mas identificar problemas na organização e agir antes que o dano ocorra.
Flexibilidade precisa alcançar diferentes funções
O trabalho do futuro tende a ser mais híbrido, fluido e orientado por propósito, como mostra reportagem do Mundo RH sobre as novas configurações do trabalho.
A flexibilidade, porém, não pode ser entendida apenas como possibilidade de trabalhar em casa. Fábricas, hospitais, lojas, logística e serviços presenciais exigem soluções compatíveis com suas realidades.
Caridade e filantropia
Previsibilidade de escala, troca de turnos, horários flexíveis, jornadas reduzidas e autonomia para lidar com necessidades pessoais também são formas de flexibilidade.
O RH precisa evitar políticas que beneficiem somente trabalhadores administrativos. Modelos desiguais podem aumentar a percepção de privilégio e dividir a cultura. A saída está em reconhecer que funções diferentes exigem alternativas diferentes, mas sustentadas por critérios claros e tratamento respeitoso.
Benefícios precisam acompanhar os novos riscos
A pressão financeira afeta 55% da força de trabalho global, segundo a PwC. Na pesquisa da Randstad, 40% dos profissionais disseram ter assumido uma segunda atividade e 36% pretendem aumentar as horas trabalhadas.
Esse cenário modifica o papel dos benefícios. Saúde física e mental, alimentação, previdência, educação financeira, flexibilidade e apoio ao desenvolvimento passam a fazer parte da estratégia de permanência.
As tendências de benefícios corporativos para 2026 mostram o avanço da personalização, da inteligência artificial e de modelos mais flexíveis.
Formação comercial
A personalização, entretanto, não significa oferecer serviços sem critérios. O RH precisa analisar utilização, valor percebido, custo, acesso e aderência às necessidades dos trabalhadores.
Um pacote extenso, mas desconhecido ou difícil de usar, tem pouco impacto. O benefício precisa resolver uma necessidade concreta e estar acompanhado de comunicação clara.
Dados devem orientar, não controlar
A gestão de pessoas do futuro será mais orientada por dados. Informações comportamentais, indicadores de desempenho, pesquisas de clima e registros de carreira podem apoiar desenvolvimento, sucessão e mobilidade.
A reportagem “Dados comportamentais ganham força nas decisões de RH” mostra aplicações em trilhas personalizadas, identificação de potencial e movimentações internas.
O risco está em transformar os dados em instrumentos de vigilância ou em verdades absolutas. Indicadores refletem uma parte da realidade e podem reproduzir distorções históricas.
Antes de implantar uma ferramenta, o RH precisa definir qual decisão será apoiada, quais dados serão utilizados, quem terá acesso e como o profissional poderá contestar informações incorretas. Privacidade, segurança e transparência precisam estar presentes desde o início.
Engenharia e tecnologia
RH do futuro terá de trabalhar sem fronteiras
As transformações não serão conduzidas pelo RH isoladamente. Inteligência artificial exige parceria com tecnologia e proteção de dados. Saúde mental depende de liderança, SST, jurídico e compliance. Benefícios exigem diálogo com finanças. Desenvolvimento precisa estar conectado às áreas de negócio.
O modelo de RH estratégico voltado ao futuro do trabalho depende da capacidade de antecipar tendências, traduzir mudanças e influenciar decisões.
A relevância da área será medida menos pela quantidade de programas criados e mais pelos problemas organizacionais que consegue resolver.
O futuro da gestão de pessoas exige cinco compromissos: redesenhar o trabalho com participação humana, democratizar o acesso ao aprendizado, preparar e proteger gestores, prevenir o adoecimento e utilizar dados com responsabilidade.
A tecnologia pode indicar caminhos, automatizar rotinas e ampliar a produtividade. Mas ainda caberá às pessoas definir o propósito, os limites e as consequências das decisões.
Ficção científica e fantasia
Para o RH, o futuro não será escolher entre eficiência e humanidade. Será demonstrar que organizações sustentáveis precisam das duas.
Fonte:
Francisco Carlos, jornalista especializado em carreiras, gestão de pessoas e recursos humanos, e CEO do Mundo RH, uma das principais referências em conteúdo e informações sobre o mundo corporativo no Brasil e no Mundo.